A Kabbalah ensina que a criação acontece agora, neste instante.
Cada pensamento, cada palavra e cada ação participam de um processo criador que nunca parou. E há um estado de consciência, a Consciência Aleph, capaz de reconhecer o Infinito dentro do finito sem perder o contato com nenhum dos dois. Este artigo apresenta os conceitos centrais desse estado: Ain Sof, Ohr Pashut, Tzimtzum e o que a letra Aleph (א) revela sobre quem somos e de onde viemos.
Por Horacio Zabala | 2026
O Sefer HaBahir afirma que "a criação é uma renovação constante do mundo pela força da Luz." O Zohar complementa: todo instante é uma nova criação, e cada ser humano participa dessa obra com seus pensamentos, palavras e ações.
Isso tem uma consequência direta: somos co-criadores ativos, e o nível de consciência que trazemos para cada momento determina a qualidade do que se manifesta. Segundo o Ari HaKadosh, somos expressões da Luz Superior se atualizando continuamente no mundo físico. Quanto maior a consciência em jogo, maior a correção (ou o caos) que se insere nesse processo criador.
O mundo atual vive um momento que a tradição descreve como trabalho de parto: há mais dores, mais contrações. E quando o parto se aproxima, as contrações aumentam. Algo se rompe. As águas descem. O nascimento de um novo nível de consciência já está em andamento.
O primeiro conceito fundamental é o Ain Sof (אין סוף), literalmente "sem fim." Ain Sof é potencial puro, infinita possibilidade de ser, além do ser e do não-ser. Potencial de tudo, manifestação de nada.
Aqui a Kabbalah avança para um terreno que vai além do que a maioria das fontes apresenta. No nível mais rigoroso da alta Kabbalah, o Ain Sof sequer contém Luz, porque afirmar que ele tem Luz seria dar-lhe um atributo, e qualquer atributo o limitaria. O Ain Sof é a fonte da Luz, mas está além da própria Luz.
No Ain Sof não há vontade, pensamento ou ação. É pura transcendência. A Luz é algo "em relação a", e no Ain Sof não existe relação, apenas o Ser absoluto e sem forma.
A primeira expressão perceptível do Ain Sof é o Ohr Pashut (אור פשוט), a Luz Simples. Essa luz já flui, já se projeta, mas ainda sem nenhuma estrutura. É o modo como o Ain Sof "se faz conhecer" sem deixar de ser Ain Sof.
Uma analogia útil: o Ain Sof seria como a matéria do sol, seu magnetismo e energia térmica concentrada. O Ohr Pashut seria a radiação primordial que emana dele, preenchendo a existência de forma uniforme, antes de alcançar qualquer planeta, atmosfera ou objeto.
O Ohr Pashut é chamado de "simples" (pashut) porque é perfeitamente uniforme e indiferenciado, anterior à complexidade das dez Sefirot. Nele não há distinção entre luz e recipiente, entre sujeito e objeto. Contém tudo em unidade indivisível, sem partes, sem hierarquias.
É a totalidade sem contraste. Sua simplicidade é absoluta. Ela é, e esse ser é absoluto. O Ein Sof não é o Ohr Pashut, mas o Ohr Pashut é a primeira expressão do Ein Sof.
A "Luz" que imaginamos a partir da dualidade do mundo físico implica a existência da sombra. O Ohr Pashut está além disso. Ele simplesmente é.
Para que pudesse existir criação (multiplicidade, mundos, seres), o Ain Sof realizou o Tzimtzum (צמצום), a contração. Ele recolheu sua Luz infinita, gerando um espaço vazio (halal) dentro do qual todas as coisas puderam vir a existir.
Sem o Tzimtzum, não haveria espaço para nada além do Infinito. O Sem Limites preencheria tudo e nada poderia existir como algo distinto.
Nesse espaço criado pelo Tzimtzum é introduzido o Kav, o raio de luz. Ao contrário do Ohr Pashut, o Kav é uma luz medida, dirigida, finita. É somente após esse ato que o raio de luz se estende para dentro do espaço vazio, dando início à criação das Sefirot e de todos os mundos.
O Tzimtzum é o gesto de amor mais radical: o Infinito que recua para dar lugar ao finito. A restrição como condição para o outro existir.
Apresentados Ain Sof, Ohr Pashut e Tzimtzum, surge uma questão essencial: quem reconhece todo esse processo? Quem, dentro da criação, pode ver de onde veio e para onde vai?
É aí que entra a Consciência Aleph (א).
A Consciência Aleph reconhece o Infinito dentro do finito. Vive dentro da multiplicidade, no mundo pós-Tzimtzum, mas reconhece que tudo ainda faz parte do Ain Sof. É uma consciência capaz de olhar para o tempo e ver eternidade, para o outro e ver o Um, para a dor e ver sentido. Não por dogma, mas por verdadeira visão integrada.
Aleph é o veículo através do qual a Unidade se manifesta nas múltiplas dimensões. No início, é Aleph. No fim, voltamos a Aleph. A consciência do Ain Sof neste mundo pulsa nesse ciclo eterno.
A Chave da Cura: Correção ou Revelação?
O shiur apresenta aqui uma das distinções mais poderosas da série. A partir da Consciência Aleph, a própria noção de "cura" muda de significado.
A cura, como conceito, só existe no plano da fragmentação (Olam haPerud). No plano da Unidade, no Ain Sof, não existe o que curar, porque nunca houve separação. Falar de cura é afirmar o estado de falha como ponto de partida, e isso já é uma distorção da Consciência Aleph.
A pergunta que a Kabbalah propõe é mais profunda: o que buscamos, correção ou revelação?
A Luz, em linguagem de revelação, revela o que já é perfeito. O Nome Sagrado (Shem Kadosh) não age sobre o mundo para transformá-lo: ele reflete um aspecto do Ain Sof que já existe em plenitude. Quando usamos um Nome, o objetivo é refinar o canal da consciência, permitindo que a Luz imanente se revele através desse recipiente.
Por isso, em vez de "cura", a linguagem alinhada à Consciência Aleph usa expressões como:
Restituição da Unidade
Despertar da lembrança da plenitude
Reintegração da consciência dispersa
Iluminação das faíscas adormecidas
Recuperação do Brilho
Essas ações ocorrem sobre a percepção, que é o verdadeiro espaço onde acontece a correção (Tikun). Está escrito: "Quando houver entre vocês um que não precise mais de cura, ele será um farol, não por suas palavras, mas por sua presença."
HaOtiot: A Kabbalah das Letras
O shiur aprofunda a Consciência Aleph através da morfologia das próprias letras hebraicas, o campo conhecido como HaOtiot (הְאוֹתִיּוֹת), a Kabbalah das Letras.
A Letra Bet (ב) e o Mundo da Dualidade
A Torah começa com a letra Bet (ב), primeira letra de Bereshit (בְּרֵאשִׁית), "No princípio." A forma da Bet revela sua natureza: é fechada dos três lados e aberta apenas para frente, em direção ao futuro, ao mundo da ação e da multiplicidade.
O lado direito da Bet, que está fechado, representa o passado absoluto, o Ein Sof. Quem nasce dentro do mundo da Bet, desde a dualidade, não pode ver a origem nem a unidade.
A Bet inaugura a Consciência Bet: dualidade, criação, linguagem. Com ela inicia-se o mundo da diferença, luz e trevas, cima e baixo, masculino e feminino, bem e mal. É o início da multiplicidade e da separação ilusória.
A Letra Aleph (א) e a Unidade Atravessada
Aleph (א) é a primeira letra do alfabeto hebraico, mas o mundo não começa por ela. O mundo começa pela Bet. E isso diz algo essencial sobre a condição humana.
A forma da Aleph é composta de três elementos:
Um Yud acima (o oculto superior, o mundo divino)
Um Yud abaixo (o reflexo inferior, o mundo material)
Uma Vav diagonal que os une (o fluxo entre mundos)
O Vav é o limite entre o mundo de cima e o mundo de baixo, e a Aleph o atravessa. Por isso a Aleph é a única letra sem som próprio. Representa o Silêncio Divino anterior à fala, anterior à dualidade.
A distinção fundamental: Aleph é um canal de consciência, enquanto as demais letras são recipientes de consciência. Ela conecta acima e abaixo. É ponte. Anterior ao tempo cronológico porque é anterior ao próprio tempo.
Por isso a Aleph pode entrar no mundo da Bet, no mundo da multiplicidade, sem perder a unidade, pois ela não é limitada pela forma. Ela não habita, ela atravessa.
| Or Pashut | Consciência Aleph | |
|---|---|---|
| Conhece a separação | Não | Sim |
| Estado de Unidade | Pré-separação | Pós-reconciliação |
| Caminho | Inexistente. Puro ser | Passa pelo Tzimtzum |
| Relação com Tikun | Antes da correção | Participante da correção |
Aleph e Bet: A Relação entre Unidade e Mundo
Imagina a Bet como um labirinto: quem nasce dentro dele não conhece a saída e não lembra da entrada. A Aleph é como alguém que vem de fora, conhece o mapa, e entra para guiar outros em direção à saída, às respostas, à unificação.
A Bet precisa da Aleph para se lembrar da Luz Simples. Sozinha, a Bet só pode gerar mundos. Com a Aleph, pode gerar consciência desses mundos.
Ao contrário do Ohr Pashut (que nunca conheceu o outro porque nunca houve separação), a Consciência Aleph reconhece o outro como reflexo do Um. Ela conhece o dois, mas vê o Um por trás do dois.
A Consciência Aleph é transcendência da dualidade. Quem a habita não busca integração porque não percebe divisão. Não busca unificação porque não percebe fragmentação. A consciência já está integrada no Todo, e o que opera é a canalização, o serviço, o fluxo.
O shiur organiza os conceitos em um quadro que orienta toda a jornada:
| Conceito | Nível Ontológico | Relação com o Infinito |
|---|---|---|
| Ein Sof | Total transcendência | É o Infinito absoluto |
| Or Pashut | Emanação indistinta | Manifestação plena do Ein Sof |
| Tzimtzum | Espaço da ilusão | Criação do "vazio" para o múltiplo |
| Consciência Aleph | Retorno dentro da criação | Reconhece o Infinito no finito |
O Silêncio como Portal
O shiur encerra com uma afirmação que é ela mesma um ensinamento de Aleph:
"O silêncio pode ser o verdadeiro segredo dentro do maior segredo."
E cita o Zohar (III, 279b): quando o Justo faz sua passagem, a Luz que o acompanhava permanece para os que continuam. A alma dos justos nunca parte.
A Consciência Aleph é isso: a Luz que atravessa os mundos sem se dissolver neles, que reconhece o Infinito em cada forma finita, e que ao partir deixa mais Luz do que encontrou.
Este artigo é uma curadoria do shiur "A Consciência Unificada" do ciclo Ohr Chokmah da Escola G.E.R.A.h., ministrado por Horacio Zabala em 11 de julho de 2025. Para a prática meditativa das letras trabalhadas neste shiur, acesse a gravação completa: Assistir ao Shiur Completo

"A Alquimia da Responsabilidade: O Poder Oculto do Responso e a Soberania do Ser"
Como transmutar o peso da obrigação no poder de criar sua realidade.
A chave etimológica para interagir com o destino em vez de apenas sofrê-lo.
O princípio para assumir a autoria total do seu roteiro e exercer a soberania do Ser.