Se espiritualidade genuína transforma o ser humano, ela transforma também a sociedade que esse ser humano constrói. Os dados globais mostram o inverso: os países com maior prática espiritual e religiosa declarada concentram os piores índices de proteção à vida humana. Vale olhar esse contraste com olhos de engenheiro espiritual.
Há uma pergunta que raramente aparece nas conversas sobre espiritualidade, mas que os dados tornam inevitável: se décadas, séculos, milênios de prática espiritual intensa produzem uma sociedade, como é essa sociedade? A Índia é o exemplo mais eloquente disponível. É o berço do hinduísmo, do budismo, do jainismo e do siquismo. É o país que o imaginário ocidental elegeu como o ápice da sabedoria espiritual, visível em cada loja esotérica onde budas, ganeshas e shivas ocupam noventa por cento das prateleiras. E é também o país que ocupa a posição 134 entre 193 nações no Índice de Desenvolvimento Humano do PNUD. O país onde 25,8 crianças morrem para cada mil nascidas, antes de completar o primeiro ano de vida. O país onde 37% da população ainda não tem acesso a saneamento seguro.
No outro extremo estão países como Suécia, Dinamarca, Estônia, Canadá e Austrália. Aqui se vê precisamente o contrário da crença: são sociedades onde o interesse por rituais, imagens sagradas e aparatos esotéricos é mínimo ou praticamente inexistente. A maioria de seus habitantes não busca sistemas espirituais, não frequenta templos, não coleciona símbolos e não pratica nenhuma forma de devoção organizada. E são, pelos dados de qualidade de vida, as sociedades mais humanamente desenvolvidas do planeta. A mortalidade infantil na Suécia é de 1,67 por mil nascidos. Quinze vezes menor do que na Índia. O saneamento chega a praticamente cem por cento da população. O Índice de Desenvolvimento Humano coloca esses países entre os cinco primeiros do mundo.
Os países onde menos pessoas buscam práticas espirituais, compram imagens ou seguem qualquer sistema de devoção são, pelos dados, os que mais protegem a vida. E os países onde o altar está em cada esquina são os que menos conseguem garantir que uma criança chegue ao primeiro ano de vida. Essa é uma observação que os dados tornam difícil de ignorar.
Há uma observação cotidiana que qualquer pessoa pode verificar sem precisar de dados: entre em qualquer loja esotérica no Brasil, na Argentina, em Portugal, na Espanha ou nos Estados Unidos, uma grande porcentagem dos produtos é de origem indiana ou com estética indiana. Budas de todas as formas e tamanhos. Ganeshas dourados. Shivas dançantes. Incenso indiano. Mantras em sânscrito. Malas com 108 contas.
O mercado esotérico ocidental elegeu a Índia como sua fonte privilegiada de espiritualidade. E o fez sem fazer as perguntas mais óbvias: o que essa espiritualidade produziu no território onde nasceu e é praticada há milênios? A materialidade acompanha a espiritualidade?
A resposta está nos números acima, e não é uma crítica à Índia como nação, que vem fazendo progresso real e consistente em seus indicadores sociais nas últimas décadas. É uma crítica à importação acrítica de um aparato simbólico desassociado dos princípios que o originaram.
Há uma distinção que este artigo precisa fazer com precisão, porque sem ela o argumento fica injusto. A Índia é o berço de alguns dos tesouros espirituais mais profundos que a humanidade produziu. O Advaita Vedanta de Shankara. As Upanishads. O Yoga Sutras de Patanjali. Essas tradições ensinavam algo que a psicologia moderna levaria séculos para redescobrir: que o ser humano opera a partir de estruturas inconscientes que determinam sua percepção da realidade, e que o trabalho espiritual genuíno consiste em reconhecer e dissolver essas estruturas, não em acrescentar rituais e imagens sobre elas.
O Advaita Vedanta de Shankara ensinava que a ignorância fundamental, a Avidyā, é o único obstáculo entre o ser humano e sua natureza real, e que removê-la é o único trabalho que importa. As Upanishads descreviam a natureza da consciência com uma precisão que ainda surpreende os estudiosos contemporâneos.
O que chegou ao Ocidente nas prateleiras das lojas esotéricas é apenas a camada superficial e ritualística de uma cultura que, em seu próprio território, coexiste com os índices que os números acima documentam. A filosofia profunda ficou nos textos e o aparato ritualístico foi exportado para o Ocidente. A G.E.R.A.h estuda as Upanishads, o Vedanta e os princípios que estão na raiz dessas tradições e servem para criar realidade hoje, exatamente porque reconhece sua profundidade genuína. O que questionamos aqui é o uso superficial, e quase infantil, que as pessoas fazem delas quando buscam prosperidade e bem-estar material a partir de crenças cegas. Os dados e os argumentos deste artigo mostram exatamente o resultado dessa busca.
A Suécia, a Dinamarca, a Estônia, o Canadá e a Austrália não são países que carecem de valores. São países onde os valores que qualquer tradição genuína ensina na origem, o cuidado com o próximo, a honestidade, a responsabilidade coletiva, o respeito pela vida concreta de cada ser humano, foram incorporados ao tecido das instituições sem precisar de aparatos ritualísticos para sustentá-los. O cidadão que paga seus impostos com integridade e financia o sistema de saúde que garante que nenhuma criança morra por falta de atendimento básico está praticando algo que qualquer tradição espiritual genuína chamaria de sagrado. Sem mantra. Sem imagem. Sem ritual. Com resultado verificável na vida concreta de outras pessoas. Isso significa que o sagrado aplicado ao plano concreto, ao cuidado real com a vida real de pessoas reais, produz resultados que séculos de prática ritualística intensa, nos países que o mercado esotérico elegeu como modelos, não conseguiram produzir. A iniciação genuína, em todas as tradições que a G.E.R.A.h estuda e aplica, consiste em uma transformação verificável no modo de perceber e de agir no mundo. Um iniciado que não age diferente não foi iniciado, ele foi apenas informado.
A G.E.R.A.h carrega uma frase em seu site que resume o critério pelo qual qualquer prática espiritual pode e deve ser avaliada:
"Se a espiritualidade não serve para melhorar seu estado, seus relacionamentos, sua saúde e sua economia, então você talvez esteja seguindo uma crença, uma religião ou um rebanho."
Essa frase é uma devolução do sagrado ao seu lugar original: a vida concreta, verificável, presente. Um Caminho no significado mais profundo da palavra. Nesse sentido, a espiritualidade nunca pode andar por caminhos diferentes dos caminhos da vida diária, da prosperidade e da felicidade em todas suas formas. Por isso, a própria vida, quando vivida com consciência e método, se torna em si mesma uma prática espiritual O leitor que chegou até aqui e reconhece na pergunta algo que diz respeito à sua própria trajetória já deu o primeiro passo. Reconhecer é o início da dissolução do que não funciona. E o que não funciona, por mais belo que seja o altar onde está exposto, precisa ser reconhecido antes de poder ser transformado.
A G.E.R.A.h reúne pessoas que escolheram aplicar a espiritualidade como método de transformação verificável, não como coleção de símbolos ou consolo para a estagnação. Se a frase que estrutura este artigo ressoa como uma pergunta real sobre sua própria trajetória, os grupos da escola são o próximo passo.
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